MARVEL (Series)
O Antagonista

Quando me mudei para Nova Iorque conheci o Greg, o meu colega de casa em Brooklyn. Greg era um excelente artista que ganhava a vida como art handler e quando o dinheiro não chegava vendia a sua arte nas ruas – um artista conceptual a vender arte em downtown Manhattan era surpreendente para mim!… Greg era um homem muito alto e musculado, quarenta e muitos anos, parecia saudável, mas tinha um problema na coluna, uma hérnia discal ou algo assim. Sempre que fazia esforços maiores ficava com muitas dores, o que o deixava incapacitado de se movimentar. Geralmente faltava ao trabalho e ficava de cama, imóvel, e por cada dia que não trabalhava não recebia…

Fazia-me confusão; típica europeia habituada ao “luxo” socialista da saúde publica, custou-me aceitar o facto do Greg não poder pagar o tratamento médico.

Poucos anos mais tarde Greg teve que deixar Nova Iorque, não conseguiu sustentar o preço da gentrificação de Williamsburg e regressou a Ohio (?) para ficar perto da família, mas vivia numa carrinha. Meses mais tarde foi encontrado sem vida dentro da carrinha, “vítima de ataque cardíaco” disseram-me.

Por algum tempo detestei a América!

No início eu costumava comentar com sarcasmo que os Estados Unidos estariam a produzir uma raça superior, um outro tipo de Super Homem; devido ao elevado custo dos seguros de saúde e por não terem assistência médica garantida, os americanos desenvolviam capacidades de auto cura, maior resistência à dor e sistemas imunitários superiores.

Greg e as estatísticas contrariam isso, na verdade a esperança de vida nos Estados Unidos tem vindo a decrescer.

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A expressão de qualquer cultura revela-se pelos seus mitos, sobretudo nos de eleição popular… como podem ser os heróis de banda desenhada e animação, os quais são também inputs geracionais das sociedades modernas.

O Superman é um símbolo clássico da mitologia popular dos Estados Unidos (pós-colonial). Considerado por muitos como o primeiro super-herói, teve a sua primeira publicação oficial nos finais dos anos 30. Cresceu com a geração Baby Boomer e era a franca evocação do espírito valente, jovem, mas leal e justo, o ideal de uma América (EUA) redefinida pelo selo de Heróis da 2ª Guerra Mundial.

De compleição branca (…) e atlética, o Superman é o vigilante e portador da verdade – como jornalista Clark Kent – e o justiceiro supersónico, de capa vermelha e fato azul aderente (Kryptoniano), exibindo no peito o fantástico escudo com o logo S – “maximalismo gráfico” mesmo junto ao coração – que, capaz de extraordinários poderes físicos, luta contra o mal e tenta salvar a humanidade… 

Durante gerações estes atributos adornaram a existência desta extraordinária figura que por muito tempo coabitou com a ascensão de outras figuras de género, sem nunca perder a aura nem o carinho do público… a ver pelas megaproduções cinematográficas, a adaptação da personagem a shows de rádio e TV, e outros franchisings que contribuíram para o frenesim de produtos de consumo associados à sua imagem e que durante décadas abasteceram lojas de rua e comércio online, (hoje ainda se editam comics do Superman, simultaneamente a sua imagem é “kitsch, collectible/rarity” no eBay –  e, fun fact, o poster utilizado para a peça da Caixa de Correio foi importado do Reino Unido).  

Parece-me que antigamente – antes dos Beatles – a vida dos “super-heróis” tinha um desenho mais simplificado, as lutas eram audaciosas, mas as causas eram mais fantasiosas, o reflexo de um exercício pró-entretenimento, de negação ou resignação face à realidade quotidiana … porque proveniente, talvez, de um idealismo tímido, conservador e/ou censurado, e por isso de um ativismo mais esporádico…

No caso do Superman, foi deliberada a intenção dos seus criadores, que ele simbolizasse a luta contra o fascismo e a corrupção política (no contexto político da época), que fosse um “corretor” social… Em muitas das suas aventuras ele teve um papel interventivo, na luta contra a discriminação racial, na luta pela igualdade dos cidadãos e a favor dos mais desfavorecidos. Simultaneamente, na sua essência, o Superman não é um peão político americano, mas, sobretudo em alturas de conflito, foi um apêndice conveniente de propaganda, de uma América que terá sido descrita como uma sociedade emancipada, abundante, inovadora, eficiente e idealista, com valores de liberdade e justiça social.

Os anos passaram, o inimigo ganhou complexidade, o jornalismo perdeu credibilidade e os lobbies ocuparam Krypton.  

Hoje o Superman não voa sobre a América; uma América mais fragmentada e por muito tempo sonâmbula nos seus colectivos desejos (ou capacidade) de reforma, porém, sobretudo nos últimos 20 anos, engordou a lista da luta pelos direitos cívicos, com a multiplicação de grupos minoritários e sistemas de inclusão (como  é o caso do reconhecimento da neuro-diversidade como vetor de integração da população neuro-divergente), com ativismo focado na justiça racial e social, na igualdade de género, nos direitos do imigrante, nos direitos do LGBTQIA2S+, nos direitos das populações indígenas, na proteção do meio ambiente, etc… e com rápido impacto na paisagem cultural, como a criação de nova terminologia – causada em parte pela estigmatização da linguagem – assim como novas estéticas, por exemplo ao nível do design urbano e da moda. 

O ativismo cresceu, ramificou-se, mas, sobretudo nas últimas décadas, os seus esforços recaem também sobre a sua capacidade mobilizadora, numa sociedade demasiado distraída e hedonística… e, com o risco de se tornar na nova religião, o ativismo americano, (incluindo o não organizado, que emerge voluntariamente das páginas pessoais, nas redes sociais) assim como a proliferação de grupos minoritários mal ou bem organizados, mais ou menos exacerbados por fundamentalismo ideológico, é naturalmente o grito de socorro, mas é também um ativismo que tem operado desmembrado da desejada coesão fundamental e dos interesses universais (de uma sociedade, quando unida) em uma sociedade dividida, corporativista e politicamente hesitante nos valores e iniciativas pro-sociais … (apesar de alternativas a despontar, como é o caso do “Mamdanism”, em Nova Iorque)…

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Mas “MARVEL” prevalece, é um nome imenso! Uma paisagem de possibilidades… não podia ser um nome de flor (talvez de uma árvore), nem de um animal de estimação, de um perfume, de um talho, de uma ponte, nem de uma pasta de dentes!!… Tem que ser algo mais, como parte de uma combinação binária de um código secreto, o nome da nave em missão de paz a um novo planeta, o nome de um labirinto num jardim da antiga Alexandria… O nome da fração de tempo em que sorri ao ver a dupla que subiu ao cimo do Empire State Building e exibiu a bandeira com a frase “When the power of love beats the love of power the world knows peace”, (Quando o poder do amor ganha ao amor do poder o mundo conhece a paz).

Claudia Ulisses, Nova Iorque, Julho de 2026

Claudia Ulisses é uma artista visual portuguesa que vive e trabalha em Nova Iorque desde 2010. Cl.Ul. utiliza diversos meios, desde o vídeo e a instalação, à fotografia, pintura e desenho. O seu trabalho gira sobretudo em torno de questões relacionadas com a condição humana, o feminismo e a arte, explorando conceitos e relações de carácter social, particularmente atravessadas ​​por espectros políticos e outros sistemas de influência social.

The Floating Man, Airplane room, Brooklyn, New York  ▪️ A Arte Como Experiência do Real Ivo Martins Collection in Serralves Museum, José de Guimarães International Center of Arts, Portugal ▪️ Long night of light / Young-art-night, Staatliches Textil und Industrie Museum Augsburg, Germany ▪️ Five Centuries of Drawing / Cinco Séculos de Desenho, National Museum Soares dos Reis, Portugal ▪️ Margenes de Silencio. Margins of Silence, Helga de Alvear Collection, Center for Visual Arts Helga de Alvear Foundation, Spain ▪️ Viva, Vital International Video Art Festival, Hara Museum of Contemporary Art, Tokyo, Japan ▪️ Image at Work, The Romanian Cultural Institute of Stockholm – Xposeptember 2010, Modern Museum ▪️ Index – Swedish Contemporary Art Foundation and The Romanian Cultural Institute, Stockholm, Sweden ▪️ Love Me or Leave Me, Salon – ISCP, Brooklyn, New York, USA ▪️ ANCOR Project, Armazém 3b, Lisbon, Portugal ▪️ Video art ShowCase Chiado Museum, Lisbon, Portugal ▪️ Toxic, O Discurso do Excesso, Terminal – Plano 21, Portugal ▪️ Portugal 30 artist under 40, Contemporary Portuguese Art. Stenersen Museum, Oslo, Norway ▪️ Cine y Casi Cine, Video Exhibition, M.C.A.R.S – Reina Sofia National Museum, Madrid, Spain.